[R] - Sono, de Haruki Murakami

19.10.16

 "É o décimo sétimo dia em que não consigo dormir. Não se trata de insônia [...] Isso mesmo: eu estava vivendo um estado de sonolência. Eu não sentia mais nada, como um corpo afogado. Todas as coisas ao meu redor estavam turvas e embotadas. Minha própria existencia era algo questionável, uma espécie de alucinação"

        Não sei nem como começar essa resenha. Pretendo mais pra frente falar só do Murakami, então vou me esforçar aqui pra não focar no autor, mas é uma tarefa trabalhosa porque esse é o tipo de livro “amostra grátis” da mente genial de quem o escreveu.

O livro foi publicado pela primeira vez no Japão em 1991 como um conto mas só chegou aqui no Br em 2015 pela editora Alfaguara.  Primeiramente, preciso destacar a dança entre texto e ilustração que encontramos nesta edição. As ilustração de Kat Menschik combinam perfeitamente com a escrita de Murakami e tornam o livro uma viagem incrível.

         Ler o livro faz jus ao nome, parece que estamos mesmo dormindo e tendo um sonho daqueles que parecem reais mas são impossíveis de ser realidade. Sabe quando você sonha com alguma coisa e tem a sensação de que viveu aquilo? Sabe quando você acorda com aquela sensação de “o que foi que aconteceu durante a noite?” ? É essa sensação que temos ao terminar de ler Sono, sensação que mergulhamos e depois de 5 minutos, voltamos a superfície.


         Somos introduzidos abruptamente a história da protagonista, que assim como num sonho, não nos é apresentada, ela simplesmente existe e parece que já a conhecemos, por tanto não é necessário apresentações. Ela é uma mulher comum, com afazeres comuns, com uma família comum, uma vida sem muitas movimentações, e talvez seja isso que nos faça entrar tanto na história, nós nos identificamos com a vida pacata que a personagem leva, até que um dia, ela não consegue mais dormir. Noites de insônia embalam a história e causam os efeitos mais adversos que podem causar em um ser humano. 

           A falta de descanso causa percepções diferentes na narradora, que conta em primeira pessoa tudo que ela tem observado nesse período em que não dorme e como isso mexe com ela e a deixa perturbada, desde o dia em que teve uma “visão” de um senhor em seu quarto. Durante toda a história nós ficamos ansiosos para saber qual vai ser o desfecho do relato, ficamos curiosos, afinal, parece que não existe solução pra aquilo, temos a impressão que não existe cura pro dilema da história, queremos simplesmente acordar do sonho ruim que temos ao ler esse livro (deixo aqui a subentendido a minha interpretação a da obra. Se você já leu este livro, deve ter entendido o que eu quis dizer). E o engraçado é que temos a impressão de que a personagem também se sente curiosa com o final de tudo aquilo. E ao mesmo tempo em que ela busca saber o final, vive momentos de revelação de como a vida realmente é, sem disfarces. É como se a personagem observasse a pintura que é a vida dela e focasse em cada detalhe que sempre passou despercebido ou que ela sempre fez questão de ignorar.


           É um livro curto mas que te deixa imerso a história, é uma onda só. Como dito acima, essa é a cara do Murakami, autor que tem se tornado um querido não só por mim mas por muitos, e tem ganhado seu espaço aqui no Brasil. É um ótimo livro para conhecer o autor e trazer sensações difíceis de sentir em outros tipos de leitura.

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