[R] - O que aprendi com Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley- II: SOMA

27.1.17




       No primeiro texto sobre essa maravilhosa obra profética, falamos um pouco sobre como nós nos deixamos enganar com a premissa de correr atrás de “ser alguém na vida” e que nossa validade vai além do currículo que apresentamos ou a utilidade que possuímos. Afinal, do que valem seus avós aposentados que precisam mais de você do que você deles?


Há um elemento interessante em Admirável Mundo Novo chamado SOMA. No caso, esse comprimido inibe desejos naturais de todos nós, como a atração, por exemplo. Dessa forma, não há como elevar sentimentos acima da razão, tornando cada pessoa naquele universo extremamente racional e ciente de seu papel na sociedade. Existem outros mecanismos para inibir o pensamento inútil no Mundo Novo, um deles é castigar as bebês assim que se interessam por livros ou elementos da natureza, como flores. Interessante, não?


Por algum motivo não temos interesse em cultivar plantas, nem mesmo paramos para ouvir os agentes do greenpease espalhados pela cidade. Por algum motivo levantamos a bandeira de “gosto não se discute, cada um lê o que quer, não existe livro ruim, o importante é ler qualquer coisa”, ou seja, fugimos do confronto. Por algum motivo, não há preocupação em manter um relacionamento com alguém por amar aquela pessoa, mas relacionamentos “são eternos enquanto duram”, enquanto há utilidade, enquanto há interesse no que outra pessoa pode te oferecer, e não no que você pode oferecer ao outro.

Não me recordo de ter tomado um comprimido que inibe meu amor ao próximo, não me recordo de ter tomado choque ou ouvido uma sirene ao me interessar por livros ou pela natureza, mas me lembro e sou lembrada todos os dias que ouvi alguém dizendo para não perder meu tempo com aquilo que não dá futuro. Me lembro de ouvir de alguém com quem me relacionei de que sofreria se optasse por ser professora, lembro de pessoas dizendo que não deveria ler livros sobre outras religiões, ciência ou fantasia para não perder a minha fé. 



Não me recordo de ter estado no Mundo Novo, mas sinto como se já estivesse por lá. Há outras formas de inibir os pensamentos, há outras maneiras de colocar cabrestos, há outras maneiras de me programar para ser útil e render dinheiro. Há outros SOMA’s, outras sirenes, outros recursos, mas o resultado é o mesmo, alienação.



E você, já tomou sua dose hoje?

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