O que aprendi com admirável mundo novo III- BICHO

5.5.17




Admirável Mundo Novo foi escrito há 90 anos.

Em 2015, quando tinha 18 anos, fui conhecer meus avós paternos. Eles moravam no interior da Paraíba, numa pequena cidade chamada Pedro Regis, que de tão pequena parecia menor que a Avenida Paulista, e parecia abrigar uma quantidade enorme de primos e tios desconhecidos. O rapaz do mercadinho era meu primo, o homem que da nome a cidade é meu tio em algum grau, parecia que todos ali faziam parte da mesma árvore, ali todos se conhecem e sobrevivem dentro da vida um do outro. Acordavam cedo para absolutamente nada além de contemplação. O fluxo de pessoas que visitavam minha avó era fora do comum para uma paulista como eu.
A casa ficava no fim de uma longa estrada de barro. Era a ultima casa antes do mato, escondida que só, quase nem existia. Havia gato, uma cabra, 14 preás (que com um humor mórbido eram ameaçados de se transformarem em churrasco. Desconfio se era apenas humor, mas creio que não).


Foi uma viagem ruim. Sou urbana. Não sei lidar com sapos na minha porta, em cima das mesas,
quase dentro das panelas. Pior, sou aspirante a nutricionista, FRESCA, não comia nada por falta de higiene, nem água bebi. Sobrevivi de um pacote de biscoito maizena e um copo de sorvete que vendia na pracinha, desconsiderando a tapioca que demorei 3 dias pra comprar por que a casa do rapaz que vendia sempre me recebia de portas fechadas. Não gosto de tomar banho com água gelada num banheiro que mal tem porta, não gosto de ser largada numa feira da cidade vizinha (que fica a mais de 100Km) onde peças de carne fresca ficam expostas as moscas junto com sapatos, cadarços de tênis e DVD's piratas. 

Me julguem, não faço parte daquele universo insalubre (sim, BEM INSALUBRE) e não me cabia na mente como pessoas conseguiam se sentir a vontade naquelas condições sub humanas. Selvagens. Porém, naqueles infinitos 5 dias mal dormidos e alimentados, pude aprender raras lições que valeram uma vida. Selvagens. Em Pedro Régis a vida era apenas a vida até quando Deus quiser. A vida era bicho, mato, amizade, roçado, gado, fome, alegria, leveza, sofrimento, sorrisos, amor, aceitação, fé, comunidade, sujeira, família, carinho, natural e profana. Era selvagem. 

Aqui em SP um litro de óleo de côco custa uns R$ 70 pronto, envazado, rotulado. Lá eu subi no coqueiro, descaquei os cocos com uma inchada (e brutalidade descomunal), levei pra vizinha, ela raspou os cocos (cerca de 15), me deu a água do fruto, fez o óleo com aquele cheiro bom de coco queimado, no dia seguinte estava pronto e em troca pediu uma galinha (ou R$20). Esse episódio é um bom exemplo de onde há mais vida.

Na parte final de admirável mundo novo, vemos como vivem aqueles que estão num lugar afastado chamado de Malpaís, que não foram programados, aqueles que nascem de vaginas e não de encubadoras, que choram no parto, que sangram, mal se domam, que aproveitam a natureza em plenitude, aqueles que somos nós. Selvagem.


A admiração que essa gente causa àqueles que são tão industriais e produzidos foi exatamente a admiração que Pedro Régis e minha avó me causaram. Fiquei indignada mas me vi rendida a naturalidade que havia ali e que nunca chegou a mim. No livro as pessoas não se dão ao luxo se viverem suas próprias tristezas afim de serem mais produtivas, apenas. Não há mais mães e filhos, essa ideia é coisa de "gente do mato", gente do Malpaís.

Na metrópole do Novo Mundo você é programado para ter orgulho de ser inferior, mas dar vasão a seu lado afetivo é similar ao regresso, miséria.

Bernard (que partilha seu nome e personalidade com um dos personagens da série Westworld e só agora eu me toquei dessa relação sensacional) tinha sido programado para ser um Alfa, a mais alta casta do novo mundo, mas uma falha na sua composição laboratorial o fez diferente.
Enquanto todos eram cegos e seguiam o fluxo natural da utilidade no novo mundo, Bernard tinha os olhos bem abertos para enxergar além daquilo que era condicionado. Na Paraíba me vi Bernard, uma Alfa da mais elevada casta sendo sensível a leveza da vida chula.

Até que ponto eu era uma mulher evoluída por almejar sucesso profissional? Que evolução há em esquecer-se como humano que sente, chora, ri, se apaixona, sofre por amor, erra. Qual a evolução em ser de ferro?.

Ao terminar o livro meditei em ser aquilo que evitamos ser, que criamos artifícios para disfarçar, que lutamos todos os dias para dominar. Nossa selvageria, nossa essência.

O que temos como humano afinal? Ser humano tem sido viver com menos intensidade aquilo que faz parte de nós, apenas para sermos uteis.
O quanto da sua vida você tem deixado de lado para se dedicar ao seu trabalho, faculdade, contas, responsabilidades. Nós vivemos correndo atrás de uma vida melhor e dispersamos a vida em nome disso.
Que paradoxo. E é engraçado que nos vemos evoluídos a cada conquista dessas, mas evoluídos em relação a quem?

Ser o que somos, intensos, loucos, sujos ou sermos evoluídos a ponto de anestesiados, o que vale mais na vida? Ser bicho ainda que feliz, ser menos gente e mais coisa?

Ser programado para a utilidade e valorização coletiva ou sermos só o que somos sem o peso da utilidade publica?

Quem são os selvagens?
Quem você tem aprendido ser?
Quem você almeja ser?

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