[E] - A tridimensionalidade

10.7.17

por Luiz Junior
Quando elaboramos um personagem para uma obra literária ou mesmo para um roteiro de cinema, temos que tomar cuidado com um detalhe principal: o protagonista (aquele que será o personagem principal durante a trama) deverá: (1) passar por um arco de transformação; e (2) ter uma falha moral que o defina.

Portanto, o personagem principal da obra será aquele que passará pelas maiores transformações durante toda a escrita.
Frodo deve resistir fortemente ao poder do anel. Um Hobbit (que deseja acima de tudo sossego) terá que salvar o mundo.
Potter precisa acima de tudo acreditar – e é quando ele toma consciência de seu poder que ele toma a decisão de matar Voldemort.
Langdon deve deixar de ser teórico e partir para a ação.
O que chamamos de Falha Moral do personagem nem sempre é algo negativo. O personagem poderá começar a trama sendo completamente otimista e tendo uma atitude positiva perante a vida. Esta Falha Moral será testada durante toda a história (falaremos disso em outro artigo) e nosso personagem fará tudo para NÃO MUDAR, resolvendo sempre da mesma forma: através do otimismo e da atitude positiva. Porém, será no clímax da história que ele será fortemente testado, tendo que mudar suas atitudes. Por exemplo: nosso personagem, sendo sempre otimista, pode muito bem não fazer um resguardo financeiro para caso de desemprego (afinal ele está na mesma empresa há 25 anos, irá se aposentar lá). Porém a empresa é vendida e ele é demitido. Ele confiará plenamente que conseguirá emprego logo, que será fácil, e nem prepara seu currículo ou reserva parte das verbas rescisórias, o que o conduz a longo período de desilusões. Isso fará com que ela passe a se precaver e atualizar seu currículo, passando a ter uma atitude mais precavida perante a vida.
Portanto, o arco do personagem é parte intrínseca da Falha Moral.
Em 127 Horas, Aron Ralston aparece logo nos primeiros frames do filme arrumando as coisas para o dia que terá. Ele procura por um canivete e, não o encontrando, vai mesmo assim. O telefone toca e ele não atende – portanto não fala para ninguém aonde vai. Ele é autossuficiente e confiante. Esta Falha Moral (autossuficiência e confiança) em seu caráter será crucial para compreender o motivo de ele ter que cortar a própria mão no clímax do filme – após ele tentar se livrar da rocha do seu jeito (confiante e autossuficiente) durante todo o tempo. E, durante todo o roteiro (portanto durante todo o filme) este caráter é evidenciado (se não assistiu, assista: logo na abertura é possível ver multidões, gente correndo, andando em conjunto, comemorando e trabalhando – indicando a necessidade de se viver em  sociedade).
Em Eterno! (que lancei agora pela plataforma Wattpad), Miguel é um jovem fracassado, que acredita piamente que a Vida tem algo contra ele. Porém, quando é desafiado a deixar algo mais na vida de alguém, ele compreende que as coisas só dependem dele mesmo.
Em Feitiço do Tempo, Phil (interpretado por Bill Murray) tentará o tempo todo resolver o problema sendo insensível e arrogante. Será sua antagonista Rita (que nem sempre é a inimiga, veja bem) que o levará a compreender sua falha até que o tempo volte a andar normalmente.
Hercule Poirot – o genial detetive criado por Agatha Christie – passa quase 40 livros resolvendo os crimes a seu modo (com o uso das geniais células cinzentas do cérebro). Mas será em Cai o Pano que ele enfrentará um assassino que o fará passar pela maior e mais poderosa mudança em toda sua vida.

Portanto, caro colega das letras, quando for criar sua obra, pense em um personagem (ou alguns personagens - o que é sempre mais difícil) que seja tridimensional, ou seja, tenha uma forte característica Moral que o levará ao fundo do poço, sendo necessário alterar esta falha através de testes para que ele possa sair vencedor (ou não – veremos isso também em outro post), dando sentido à sua obra.

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