[E] – Diferença entre escrever para Literatura e escrever para Cinema

11.9.17

por Luiz Junior

Escritores também gostaria de escrever roteiro de cinema. Porém há diferenças fundamentais entre uma obra literária e uma obra cinematográfica, que vai além das convenções da profissão. Este texto mostra algumas destas diferenças para que o escritor possa se transformar também em um roteirista.

Em conversas com escritores, sejam novatos ou experientes, famosos ou anônimos, é comum ouvir que desejam que seus livros sejam vistos um dia na tela grande do cinema.
Considerada a oitava arte, o cinema é recente em relação a todas as outras formas de expressão artística - desde que Méliès chocou o mundo com “Viagem à Lua”, em 1902.
Como uma forma de arte que se aprimorou, o cinema rapidamente desenvolveu sua linguagem técnica através da separação da noção da quarta parede e das diversas técnicas de filmagem, como a Câmera na Mão, os diversos planos de filmagem e iluminação e outros.
Diversos movimentos fizeram com que esta arte se estabelecesse, entre eles o Star System americano, o Cinema Novo brasileiro ou a Nouvelle Vague francesa.
Um profissional do cinema inicialmente foi bastante esquecido. Este profissional foi sendo pouco a pouco reconhecido mundialmente, e ainda mais tardiamente no Brasil, onde hoje é impossível começar uma grande produção sem que ele esteja presente e sem que ele (junto com o produtor e o diretor) dê o pontapé inicial. Como uma arte necessariamente cara, no Brasil é condição essencial a presença governamental para as produções nacionais. Portanto, qualquer produção realmente séria precisa participar dos Editais dos programas de audiovisual brasileiros.
E uma documentação essencial para conseguir participar destes editais é o Roteiro.
O roteirista, portanto, passa a ser personagem-chave nas produções de cinema.
Mas qual a grande diferença de um Roteiro para uma Obra Literária? Nestes anos de experiência (dois roteiros de cinema filmados e cinco livros lançados), posso afirmar o seguinte: enquanto no Roteiro o texto será necessariamente alterado por outros profissionais visando o produto final (o filme), na literatura o texto é o final-em-si, não permitindo alterações após finalizado.
E, como parte integrante da cadeia produtiva, o Roteiro tem também suas especificidades e técnicas, a linguagem própria da arte cinematográfica.
O Roteiro de Cinema nada mais é que o mapa necessário para a produção. Se engana quem pensa que nele deve haver definição de iluminação e posições de câmera. Longe disso, quem irá definir estes componentes técnicos será a equipe de decupagem, e não o roteirista. O roteiro conta a história, e conta de forma “visual”, e não “auditiva”. Veja a seguinte diferença:

Literatura
“Rafaela, totalmente transtornada pela morte de seu filho Raul, saiu caminhando vagarosamente em direção ao riacho. A cada passo dado, murmurava:
- Deus, por quê?
Em sua mente visões sobre a infância de Raul amontoavam-se umas sobre as outras – a primeira vez em que ele pronunciou ‘mamãe’, os primeiros passos, a primeira lancheira. A primeira namorada.
Com passos vacilantes, Rafaela passava o dorso da mão pelo rosto, sentindo-o totalmente molhado pelas lágrimas que derramava. Ela chegou às margens do rio que ceifara a vida de seu primogênito. Olhou fixamente para a mórbida cruz que marcava o exato local em que Raul perdera a vida naquele dia fatídico. Estava decidido: Rafaela faria companhia a seu filho”.

Roteiro de cinema
CENA 10 – Externa. Dia. Manhã. Margens do rio onde Raul se afogou
Vemos Rafaela. Seu rosto está molhado de lágrimas. Ela caminha lentamente, um passo atrás do outro. Imagens surgem em sépia. Vemos Raul. Ele está com um ano de idade, e caminha sozinho, cambaleando e caindo ao chão. Agora ele carrega uma pequena LANCHEIRA. Usa uniforme escolar. Rafaela, mais jovem, sorri ao vê-lo daquele jeito.
Voltamos para o presente. Rafaela passa o dorso da mão pelo rosto. Sua mão está molhada. O rosto exibe um rastro de pele seca em meio às lágrimas.
Rafaela se aproxima de um rio. À direita, há uma CRUZ com o  nome de Raul. Ela olha para a cruz e para por alguns instantes. Em seguida, olha para o céu. Ela murmura.

RAFAELA
Meu Deus, por quê?

Ela se ajoelha, chorando muito.
Um corvo passa voando, pousa na cruz. Ele GRASNA. Folhas secas caem ao chão. Algumas caem na água do rio e afundam. Rafaela olha com expressão séria para o rio à sua frente. Ela se levanta e caminha lentamente rumo ao rio.
Vemos seus pés entrarem na água.
A tela fica clara e todas as imagens desaparecem lentamente.

De forma básica, estas são duas formas de dizer a mesma coisa através das duas técnicas.
Eu me utilizo de uma técnica para estar sempre preparado para as criações literárias e cinematográficas. Começo sempre por um conto. Daí escrevo o roteiro de cinema e em seguida mantenho o mesmo argumento para uma obra literária completa. Assim, sempre tenho argumentos  e a ficha-base para escrever tanto um livro quanto um roteiro.
Se o escritor deseja ser roteirista, então deve se preocupar com o aprendizado da linguagem específica deste, o que o ajudará também a melhorar se processo criativo. Utilizo bastante os conceitos de roteiro de cinema nas minhas criações literárias.
Estude as técnicas de roteiro e experimente, verá o quanto são úteis para a construção de nossas histórias.

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